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domingo, maio 21, 2006

Entrevista: Peter Handke

São Paulo, domingo, 21 de maio de 2006

+(L)ivros

O escritor austríaco, um dos principais em língua alemã, fala de seu trabalho Devorado pelas palavras
EMILIE GRANGERAY

Faz 16 anos que ele mora em Hauts-de-Seine (perto de Paris), que retratou magnificamente em "Meu Ano na Baía de Ninguém". Há 16 anos escreve ao ar livre, "ao sol, ao vento, nos bosques frondosos" -"meu ideal". É aqui que, sozinho, no silêncio e na ausência de outros, entra no que Wittgenstein chamou de "atmosfera poética". Peter Handke aceitou falar conosco sobre seu método e suas obras. Nascido em 1942 na pequena cidade de Griffen, na região de Karst (Áustria), Peter Handke passou seus primeiros anos em Berlim Oriental. Sua mãe, de origem eslovena, casou-se, pouco antes de ele nascer, com um suboficial da Wehrmacht, como conta em "A Infelicidade Indiferente". Em 1966, sua peça "Insulto ao Público" e seu primeiro romance, "Os Vespões", chamaram imediatamente a atenção. Quatro anos depois, Handke realiza "Crônica dos Acontecimentos Correntes", um longa para a TV. Em 1978 adapta sua obra "A Mulher Canhota". Depois, escreveria "As Asas do Desejo", para Wim Wenders. De Handke, já foram lançados no Brasil "História de uma Infância" (Cia. das Letras), "A Ausência", "A Repetição" e "A Tarde de um Escritor" (Rocco). Peter Handke começou falando, na entrevista, sobre "De Manhã na Minha Janela (1982-1987) - Cadernos do Rochedo".

Pergunta - O senhor sempre manteve cadernos de notas? Por que teve vontade de publicar essas "notas, percepções, reflexões e perguntas"?
Peter Handke - Comecei a fazer um caderno quando fui internado em um hospital, em 1975. Até então só tomava notas para elaborar meus livros. Hoje quase não anoto mais nada: não tenho vontade de ser metódico demais. Por outro lado, quando reli esse cadernos, fiquei entusiasmado. Encontrei neles uma forma: era o mundo ritmado, com espaços intermediários.

Pergunta - Foram justamente os russos e os americanos -principalmente Faulkner- que o colocaram na via da narrativa?
Handke - E que ainda hoje me levam de volta a ela. A narrativa -mais do que o teatro, mais do que a poesia (mas escrever um poema por ano já é uma graça)- é meu ideal.

Pergunta - O sr. é um grande leitor?
Handke - Leio muito para me concentrar e para me purificar. Para me sentir ao mesmo tempo transparente e forte. Para decifrar, mais do que para consumir. Eu arejo o cérebro por meio do trabalho com a língua. Neste momento, por exemplo, traduzo poesia árabe.

Pergunta - Embora o sr. se imponha "não caracterizar, não tipificar", pois, como diz, assim que começamos a emitir uma opinião sobre as pessoas, a julgá-las, "a poesia termina", o sr. não consegue se impedir de maltratar os burgueses, esses "donos do mundo cacarejantes".
Handke - É verdade. Todos os dias é uma batalha contra a repugnância. No entanto creio que a opinião impede de escrever. Há dez ou 15 anos transferi o trabalho de escrever da manhã para a tarde, pois era com freqüência nesse momento do dia que eu me deixava levar pelo mau humor e as opiniões. Agora, quando trabalho, tudo desaparece. Trabalho até me cansar. E, quando estou cansado, não tenho mais opiniões.

Pergunta - Com o tempo, as suas frases se tornaram mais longas.
Handke - Na época de "O Medo do Goleiro diante do Pênalti" eu ainda conseguia escrever frases curtas. É um texto muito concentrado, que queria terminar antes do nascimento de meu primeiro filho. E terminei dois dias antes! Sentia-me então -e ainda me sinto- como um operário: era grandioso ficar cansado daquele jeito! Com a idade, percebemos que fazer frases como flechas tem um lado um pouco enganador. Mas o que vemos e o que vivemos como realidade é muito mais complexo. É preciso girar muito o laço para capturar o animal: não podemos mais nos contentar em atirar flechas. No entanto, tenho vontade -quase saudade- de escrever frases curtas, mas, como elas me deixam insatisfeito, volto às frases longas, que deixam passar mais coisas, que dão conta de diferentes realidades. Então me deixo ir, mas prestando muita atenção. Devo sempre lutar contra o lirismo de minha prosa. Nisso meus estudos de direito ajudaram muito.

Pergunta - Que relação o sr. mantém com a língua alemã?
Handke - O alemão é uma língua magnífica... mística, muito precisa, perigosa, em que podemos realmente nos perder.

Pergunta - O sr. corrige seus textos?
Handke - É terrível! Pode haver até quatro revisões, e tenho muito respeito pelos editores que aceitam esses manuscritos que são, às vezes, um verdadeiro campo de batalha! Às vezes corrijo até perder o ritmo do primeiro trajeto. Quando modifico muito, é horrível. Não vejo mais a luz. Fico próximo demais das palavras. Sou devorado pelas palavras. Mas Flaubert e outros já falaram muito sobre essa impotência para que eu acrescente algo.

Este texto saiu no "Le Monde". Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves .

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